segunda-feira, 25 de junho de 2007

CAPÍTULO III-COMO DE DIU ME EMBARQUEI PARA O ESTREITO DE MECA E DO QUE PASSEI NESTA VIAGEM


Havendo há dezassete dias que eu era chegado a esta fortaleza de Diu, fazendo-se nela prestes duas fustas para irem ao estreito de Meca saberem a certeza da armada dos turcos, de que já na Índia havia algum receio, me embarquei numa delas de que era capitão o meu amigo, por me fazer ele grandes encarecimentos de sua amizade naquela viagem, afirmando ser muito fácil sair eu dela muito rico em pouco tempo, que era o que eu então pretendia. Confiado nesta promessa, e enganado com esta esperança, sem pôr diante dos olhos quão caro quantas vezes isto custa, e quão arriscada eu então levava a vida, assim por ser fora do tempo, como pelo que depois sucedeu por pecados meus e de todos os que nela fomos, me embarquei com este meu amigo numa fusta que se chamava "Silveira".
Partindo ambas as fustas desta fortaleza de Diu e assim navegando juntas em conserva, com tempo assaz forte, na despedida do Inverno, com grandes chuvadas e contra monção, avistámos as ilhas de Curia, Muria e Abedalcuria, nas quais estivemos de todos perdidos, sem nenhuma esperança de vida. E tornando-nos, por não haver outro remédio, na volta do sudoeste, prouve a Nosso Senhor que ferrámos a ponta da ILHA Sacotorá, uma légua abaixo donde esteve a nossa fortaleza que D. Francisco de Almeida, primeiro Vice - Rei da Índia, fez, quando no ano de 1507 partiu deste reino. E ali fizemos nossa aguada e obtivemos algum refresco, que por nosso resgate comprámos aos cristãos da terra, que descendem daqueles que outrora o apóstolo São Tomé converteu nas partes da Índia e Coromandel.
Desta ilha partimos com fundamento de chegarmos às portas do estreito, e em nove dias de tempo bonançoso nos pusemos na altura de Maçua onde ao pôr do Sol avistámos uma vela, a qual seguimos com tanta pressa que a ela chegámos por altura do render do quarto da prima. E querendo nós, por via de boa amizade, falar com o seu capitão, para nos informarmos de que pretendíamos saber da armada do Turco , se era já partida do Suez ou que novas havia dela, a reposta dos da nau foi tão fora do que esperávamos, que sem falarem palavra nos assombraram com doze pelouros, dos quais cinco eram de falcões e roqueiras, e sete de berços, fora as muitas arcabuzadas que também nos atiraram, como gente que nos não tinha em conta. E de quando em quando nos davam muitas gritas e apupadelas, e capeando-nos com bandeiras e toucas, nos mostravam do castelo da popa muitos terçados nus, esgrimindo com eles no ar , para que nos chegássemos a eles.
Com a primeira vista destas suas fanfarronices ficámos nós um tanto embaraçados. E conversando ambos os capitães e os outros companheiros sobre o que se faria neste caso, se concluiu, por parecer da maioria, que os inimigos se não fossem a salvo, mas que se fizesse todo o possível para os irmos gastando com a nossa artilharia até que fosse manhã, porque então nos ficaria mais fácil e menos perigoso abalroá-los, o que assim se fez. E dando-lhe caça todo o mais que restava da noite, prouve a Nosso Senhor que já quase manhã ela mesma se rendeu por si, com morte de sessenta e quatro homens dos oitenta que nela vinham, e os que ficaram vivos quase todos se lançaram ao mar, tendo este por melhor partido que morrerem queimados das panelas de pólvora que nós lhe lançámos. Assim, de todos os oitenta não escaparam mais de cinco muito feridos, dos quais um foi o capitão da nau, o qual, metido a tormento, confessou que vinha de Judá, donde era natural, e que a armada do Turco tinha já partido de Suez, com intenção de vir tomar Aden e fazer aí uma fortaleza antes de acometer a Índia, , porque essas eram as ordens que tinha o baxá do Cairo, que nela vinha como capitão-mor, num dos capítulos das directivas que o turco lhe mandara de Constantinopla. E disse também outras muitas coisas particulares muito importantes ao nosso propósito. Entre algumas que nos disse, nos veio a confessar que era cristão renegado, maior quino de nação, natural de Cerdenha, filho de um mercador que se chamava Paulo Andrés, e que não havia mais de quatro anos se tornara mouro por amor de uma grega moura com quem era casado. Os capitães perguntaram-lhe então se queria tornar á fé e fazer-se cristão. A que ele respondeu tão duro e tão fora de toda a razão como se tivesse nascido e sido criado sempre naquela maldita seita.
Os capitães, vendo quão cego e desatinado estava este mal-aventurado no conhecimento da santa e católica verdade de que lhe falavam, havendo ainda tão pouco tempo que fora cristão, como tinha confessado, crescendo-lhes a cólera, com um zelo santo da honra de Deus o mandaram atar de pés e de mãos e vivo foi lançado ao mar com um grande penedo ao pescoço, donde o Diabo o levou a participar dos tormentos de Mafamede em quem tão crente estava. E a nau, com os mais, foi metida no fundo, por ser a fazenda fardos de tintas do tipo do nosso pastel, que nos não servia então para nada, tirando algumas peças de chamalote que os soldados tomaram para se vestir.

(continua, Peregrinação)

3 comentários:

elle disse...

Que capacidade narrativa! Parece que estamos a vêr um filme.

bj

cs disse...

elle

eu fico fascinada, também. Já viu a minha sorte, tão poucos que por aqui passam e gostarem tb do Fernão

Sou uma blogger sortuda

:)

cs disse...

bem, lá têm vcs de levar com mais uns capitulos

ahahaha

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